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A quem a letra não urge? Considerando essa necessidade da escrita inerente a muitos, cá estão algumas letras que buscam cores como tratamento para dores diversas. |
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Silêncio do teclado
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Esperou.
Esperou até que todo mundo fosse embora e que o silêncio finalmente se instaurasse. Assim poderia ouvir o tec tec te c do teclado negro que mal dava para ver as letras de seu computador. Antes estava assim, um silêncio, também grande, mas o silêncio era outro, desses de vontade dar de correr em busca de algum ruÃdo; desses silêncios tão desconcertantes que mal se ouvia o tec tec. Talvez não ouvisse porque não conseguia se concentrar, logo não escrevia nada, apenas olhava atônita para a tela do computador e para aquele emanharado de letras que escrevera com uma inspiração que não conseguia compreender de onde tirara ou como fora possÃvel que escrevera tanto, agora que o teclado estava silencioso. Esperou até que todo mundo fosse embora. Demorou, verdade. Deve ter ficado algo como quarenta e sete minutos subindo e descendo a setinha no texto inacabado, nenhuma novidade, como todos os outros. Mas dessa vez ela acabaria, ah, sim. Só que precisava de seu silêncio de volta, precisava das ausências presentes, precisava se presentear consigo mesma, mas ela estava fora. Tão fora que não fazia mais ruÃdo algum. Nenhum som de seu teclado. Sem músicas ou palavras. Tec tec do computador se convertera em um hábito incrÃvel e inútil de subir e descer o texto, diminuir e aumentar o tamanho da letra para ver em quantas páginas caberia o texto caso um dia ele perdesse a etiqueta de inacabado. Quando se passaram quarenta e nove minutos o silêncio começou a perturbá-la, porque era outro, um silêncio cheio de ruÃdos que ninguém parecia antes perceber, ruÃdos da avenida lá fora, ruÃdos da lâmpada de luz incandescente, do computador ligado, do vento, dos dias passando. Parou por um momento. Uma xÃcara de cafeÃna. Voltaria.
-- Camilla Felicori gosta muito de cores. camilla.felicori@gmail.com
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