Tela pequena
19.08.06
por Rodrigo Campanella
 |
Anjos do Sol
(Brasil, 2006)
Dir.: Rudi Lagemann
Elenco: Antônio Calloni, Fernanda Carvalho, Chico Diaz, Otávio Augusto, Bianca Comparato, Vera Holtz
Princípio Ativo: terror diluÃdo
|
 |
receite essa matéria para um amigo
Entre boas intenções e bom cinema há um baita abismo. Quem defende que o Brasil produz excelente publicidade televisiva poderá agora citar como exemplo esse “Anjos do Solâ€, que boa parte do tempo tem jeito de comercial bem-feito encomendado pela Unesco. Entre pitadas de impacto, cenários e câmeras obedecem ao manual Globo de ficção.
Sem ironia, o filme poderia levar algum prêmio de boa produção no festival de Cannes, o de publicidade, ainda que criatividade não esteja na pauta. Cinema serve para muitas coisas, não apenas para produzir uma arte que é dele só. “Anjos†fica no ramo do cinema como meio de educação e acrescenta como novidade aà o visual bem aparado. Pela ousadia de tocar diretamente no tema, deve render bem em salas de aula e gerar debate, o que já é bom ganho.
O filme trata, se é que alguém ainda não viu no plim-plim, do ciclo que cria e protege a prostituição no Brasil, deixando claro que a questão é de escravidão, não importa a cor da pele.
O negócio de “Anjos†é, carimbadamente, responsabilidade social, mas é por aà que o caldo desanda. Reza o senso comum brasileiro que superficialidade dá mais público. Nessa lógica, para espalhar a mensagem nada como uma abordagem novelesca e esquemática e um formato que caiba bem em qualquer tela, antes ou durante os comerciais. A tesoura da Globofilmes também paira forte no fundo, com um fade out rápido em qualquer imagem que poderia te incomodar pro resto da vida.
As faÃscas potentes de violência somem logo, deixando o filme com aparência organizada e limpa que não soa coerente com o tema. É a velha questão de que a televisão comercial faz vitrines ao invés de criar mundos – ela não convida o espectador para dentro, mas se convida para o cotidiano de quem assiste. Para entender isso rápido, vale uma visita à ficção (O Informante, de Michael Mann) e ao doc (Boca do Lixo, de Eduardo Coutinho) fazendo cinema e não apenas melodrama em cima da polêmica.
A aposta no melô é mais arriscada quando a protagonista, Maria (Fernanda Carvalho), é grande figura, mas atriz apagada. Ironicamente, por sorte de tudo acima, o destaque e peso do filme ficam para o elenco ao redor dela, medalhões afinados no cinismo como Vera Holtz e Otávio Augusto, ou um excelente Chico Diaz. Mas o centro do filme é Antônio Calloni, com toda brutalidade e ambigüidade do ‘empresário’ mercador de almas do bordel. É ele que dá para a tela a terceira dimensão, a da profundidade – o que o resto do filme fica devendo, ao deixar de mostrar que ninguém é inocente ao redor.

Atores fazem arte, novelas fazem descanso e dinheiro
» leia/escreva comentários (0)
|