Uma breve história da civilização (sic)
15.10.09
por Daniel Oliveira
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Distrito 9
(District 9, EUA/Nova Zelândia, 2009)
Dir.: Neill Blomkamp
Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt, Louis Minnaar, Vanessa Haywood, Marian Hooman, Mandla Gaduka, David James
Princípio Ativo: ficção cientÃfica histórica
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É o modus operandis do homem-branco-ocidental-caucasiano-“civilizadoâ€: criamos leis, costumes, etiquetas e estruturas sociais que são Certas. O Outro que não vive sob essa égide está Errado e deve, portanto, ser civilizado mediante invasão, ataque e dominação. Quando a teoria de superioridade se mostra infundada, nós o pilhamos e subjugamos até que se torne impossÃvel para ele não ser o monstro previamente concebido. Enquanto absorvemos e engolimos tudo dele que nos interessa, acusamos ele de fazer isso. Porque, afinal, o Outro é o bárbaro. Não nós.
Isso já aconteceu com:
1- Mouros
2- Negros
3- Judeus
4- Gays
5- Muçulmanos (ou mouros 2.0)
Dentre vários outros. É a história (de ação e terror) da humanidade, que o diretor sul-africano Neill Blomkamp transformou em ficção cientÃfica. Afinal, se fazemos isso com outros “seres humanosâ€, por que não farÃamos com ET’s? Parte daà a premissa de “Distrito 9â€: uma nave alienÃgena estaciona sobre Johanesburgo por 20 anos e seus tripulantes, expulsos dela pela hospitalidade truculência humana, são isolados na área do tÃtulo que, cercada por militares e abandonada pelo desprezo universal, em pouco tempo se tornou uma favela.
O protagonista, Wikus van de Merwe (o ótimo estreante Sharlto Copley), é o protótipo do tal “homem brancoâ€: ignorante, a serviço de uma grande corporação e aparentemente simpático, mascarando sua violência com uma estupidez infantil. O filme, que começa como um mockumentary, tem seu estopim quando Wikus é vÃtima do maior pesadelo (kafkiano) da raça pura/superior: a mestiçagem com o outro.
É a deixa para que Blomkamp ilustre nossa obsessão por violência, armas e sangue. Especialmente esse último, que espirra na câmera lembrando que a história da humanidade é, sim, alicerçada no tripé acima. A ação e terror são uma “produção de Peter Jacksonâ€, garantia de que a parte técnica é impecável, com milhares de ET’s populando a tela sem aparentarem nem um pouco seu DNA de CGI.
O local da história e nacionalidade do diretor fazem do apartheid a analogia mais óbvia. Não por acaso, a locação que serviu como o Distrito 9 - com suas condições sub-“humanasâ€, lixões e barracos - é uma favela real onde, até pouco tempo, moravam milhares de pessoas. Mas o filme de Blomkamp, no seu retrato do preconceito, da violência e do quão questionável é o conceito de “humanidadeâ€, é universal e atemporal. “Distrito 9†resume, em duas horas, dois mil anos de ação do tal homem branco ocidental. Para efeito de sÃntese, vem a calhar que seja no continente que mais sofreu com ela, realizado por alguém que nasceu lá e convive com essa “ficção cientÃfica†diariamente.
Mais pÃlulas:
- A doutrina do choque
Infância roubada
Ensaio sobre a cegueira
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Desafio: quem é mais humano nesta foto?
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