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Capeta do Funk X Deus do Glam

Noite Alto-falante
U.D.R. e Cabaret ao vivo – A Obra, Belo Horizonte, 15/06/06

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por Braulio Lorentz (textos e fotos)


Momento grito do Cabaret

Dois shows foram marcados na conservadora capital mineira no dia do feriado de Corpus Christi. Tudo levava a crer que eram duas apresentações normais, só que não era bem assim. Era mais do que a Noite Alto-falante. Tratava-se do encontro entre o Capeta do Funk Carioca, materializado no duo local U.D.R. e o Deus do Glam Rock, contando com o auxílio do quarteto carioca Cabaret.


O som é do demônio, mas o cigarrinho não...

U.D.R.

O Mal (representado pelos adoradores do Capeta do Funk Carioca)

A dupla de garotos formada em Belo Horizonte faz um som mal-acabado, mal-educado e do mal. Quando eu digo mal, leia-se diabo, coisa ruim ou demo. E, quando eu digo demo, o sentido pode ser duplicado. O som é demo (diminutivo de demonstração) e feito para o demo (diminutivo de demônio).

No palco d’A Obra, os vocais de Professor Aquaplay e MC Carvão foram acompanhados apenas por um aparelho de som, apresentado ao fim do espetáculo como se fosse o terceiro integrante da banda. Carvão fez questão de puxar os gritos da saudação ao tocador de CDs: “Aparelho! Aparelho! Aparelho... Liga não gente, ele é meio tímidoâ€. Os dois rapazes adoradores de satã são mais engraçados nos momentos em que não há programações ao fundo. Se bem que “Dança do Pentagrama Invertido†e “Bonde da Mutilação†têm lá seu apelo.


Os rimadores do U.D.R. posam de rappers

Nas introduções às canções, o tema é outro: saem o capeta e as escatologias, entram provocações às bandas mineiras pop roqueiras. O U.D.R ironizou: “Essa é do Skank. Hoje tocaremos músicas de grandes bandas mineiras que a gente gostaâ€. “Esta música é do Pato Fu, do Rotomusic [de Liquidificapum], quando eles eram bonsâ€, alfinetaram. Sobrou até pra quem não tem nome: “Esta é de uma banda nova, que abriu o show do Manitu na calourada unificadaâ€.

Mesmo com tanto falatório, eles ainda arrumaram tempo para repetir o hit “Bonde da Orgia de Travecosâ€. Os funkeiros do U.D.R falaram muito, mas nenhum palavrão foi mais mal-educado do que não ter agradecido ao Alto-falante. Mas como eles são maus, então tudo bem.


O vocalista Marvel distribui abraços aos montes

Cabaret

O Bem (representado pelos adoradores do Deus do Glam Rock)

O Cabaret aposta em músicas bem-intencionadas e bem-humoradas. Bem no começo, o vocalista bonzinho Marvel agradeceu aos produtores da noite: “Obrigado ao Alto-falante, que realizou o nosso sonho. A gente queria tocar n’A Obra desde 2003, quando a banda nem se chamava Cabaretâ€. Com ¾ desta formação e mais um outro guitarrista, o grupo levava o nome de Glamourama.

Com muitos hu-hu-hu’s por canção, destaque para “Rockstar Babyâ€, Marvel e seus comparsas mostraram o porquê de se considerarem os “últimos heterossexuais sensíveis do Brasilâ€. Na falta de um palco que comporte sua perfomance (inquieta, porém comportada) o vocalista fez uso do espaço que separa o palanque da platéia.

Ele passeia entre o público, abraça alguns e se indispõe com outro, embora mantendo o bom-humor. “Santa Rosa Madalena é a puta que te pariuâ€, responde ao engraçadinho que o comparou com Sidney Magal, segurando uma risada. Peter Glitter (guitarrista), Myself Deluxe (baixista) e Sid Licious (baterista) também são sorridentes, diga-se de passagem. O guitarrista do Cabaret tem glitter no nome, mas é Marvel que tem bochechas que brilham por causa da purpurina.


Se levarmos em conta o sinal, parece que tá tudo ok...

O Pílula Pop tinha que acordar cedo no dia seguinte, e por isso não conferimos o show por inteiro. A audição ao vivo da balada “O amor e a guerra†fica pra outra ocasião. Mas deu pra perceber que o assunto predominante nas letras do Cabaret é o sexo, com um bocado de pudor – bem diferente do show de abertura.

É legal falar de groupie sem usar as palavras “sexo†e “drogasâ€, na já citada “Rockstar Babyâ€. Por outro lado, ainda não me decidi se o uso da expressão “milagre na horizontal†para se referir a sexo, na faixa “Messias Pessoalâ€, é baranga ou não.

Nada disso, no entanto, é comparável à sensação de termos visto o encontro entre o Deus do Glam Rock e o Capeta do Funk Carioca. O placar final da disputa foi um 666 debochado pra dupla mineira versus um 69 bem-comportado pros cariocas. Pro bem ou pro mal, todos saímos ganhando.

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