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Antes da tempestade

01.04.09

por Daniel Oliveira

Três macacos

(Üç maymun, Turquia/França/Itália, 2008)

Dir.: Nuri Bilge Ceylan
Elenco: Yavuz Bingol, Hatice Aslan, Rifat Sungar, Ercan Kesal

Princípio Ativo:
caráteres machadianos

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Eyüp (Bingol) é um motorista que assume a culpa por um atropelamento cometido por seu patrão, Servet (Kesal) – um político às vésperas da eleição – em troca de ‘uma bolada’. Quando ele está na prisão, sua esposa, Hacer (Aslan), e o filho, Ismail (Sungar, um James McAvoy subnutrido), decidem pedir um adiantamento do dinheiro. Ela descobre ‘meios’ de convencer Servet a liberar a grana com mais ‘facilidade’. O filho flagra um desses ‘meios’, mas decide se calar. Eyüp sai da cadeia.

Pode parecer um melodrama almodovariano, mas está mais para um Machado de Assis turco. O cineasta Nuri Bilge Ceylan conta essa história lenta e sutilmente, de forma que seus desdobramentos interessem menos do que o que eles nos dizem a respeito daqueles personagens. Daí o título: “Três macacos†não é tanto sobre o que Eyüp. Hacer e Ismail fazem, quanto sobre suas escolhas em não fazer: não ouvir, não ver, não falar.

O longa de Ceylan observa fria e pacientemente a fraqueza moral dessa família, que vai aos poucos sendo engolida pelo monstro mitológico encarnado por Servet e seu poder. Ismail passa o dia dormindo ou vadiando e vê no adiantamento a possibilidade de comprar um carro e escapar da faculdade. Hacer parece fugir de um marido violento, mas não hesita em mentir e dissimular para isso – uma Capitu turca e passional. E Eyüp foi o primeiro a dar o (mau) exemplo, sem moral nenhuma para exigir nada de ninguém ali.

Nenhum deles é bom. Mas nenhum é exatamente ruim. Os três sobrevivem da ignorância falsa e inerte, obrigados a calcular no silêncio se o dinheiro que recebem por sua alma paga o preço cobrado pela hipocrisia. Enquanto isso, o ambiente cada vez mais sufocante, criado pela falta de caráter, arde no inferno do calor do verão turco, que grita mais na tela que a própria história.

Esse caldeirão visual se torna um estudo-sensação que envolve o espectador e acaba mais importante que o roteiro. E na escassez de diálogos, são as atuações que Ceylan extrai de seu elenco que tornam possível esse envolvimento, da crescente introspecção do semblante de Yayuz Bingol à dissimulação sedutora do olhar de Hatice Aslan. Daí fica claro porque o cineasta ganhou o prêmio de direção em Cannes no ano passado.

Ao cozinhar esses três macacos no calor sépia de sua fotografia, Ceylan vai também aumentando no público o incômodo e a ansiedade em saber como aquilo vai terminar. Não que importe o término, ou mesmo que haja um. O espectador belorizontino, porém, sabe desde o início o que aquele sol escaldante significa: uma tempestade está chegando.

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Hatice Aslan: olhos oblíquos de cigana (turca) dissimulada.

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