Que black music, cara pálida?
30.07.08
por Rodrigo Ortega
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Santogold - Santogold
(Warner, 2008)
Top 3: "L.E.S. Artistes", "Creator", "Say Aha".
Princípio Ativo: Estranheza pop
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Uma das piadas mais babacas do seriado norte-americano The Office são os comentários racistas involuntários do chefe Michael. O gerente inclui o empregado Stanley em qualquer estereótipo negro possÃvel ("É claro que ele vai ser titular do time de basquete"). Ele responde apenas com uma cara de preguiça hilária. A mesma situação anda acontencendo com Santogold, nome artÃstico da cantora nova-iorquina Santi White, que lançou em abril seu CD de estréia. Mas a sua reação é bem mais irada.
"Todo munto fica tão chocado porque eu não me ligo em R&B. É racista, totalmente racista", esbravejou a cantora. O pior é que foi a própria gravadora dela, Warner, que indicou os discos para as seções de hip-hop e R&B das lojas. Ela não deixa de ter influências que vão desde a voz de Nina Simone aos gritos de M.I.A., mas seu début é basicamente um disco de rock, seja ele orgânico ou eletrônico.
A voz que passa por uma doçura contida ao transe descontrolado lembra imediatamente a de Karen O, vocalista dos também nova-iorquinos Yeah Yeah Yeahs. O single mais comentado do disco, "L.E.S. Artistes" é a cara do rock de Nova York desta década. É impossÃvel ouvir a parte instrumental e não pensar nos Strokes. Santogold até cantou com Julian Casablancas na música "My drive thru", encomendada pela marca de tênis Converse, junto com o produtor Pharrell Wiliams.
Outra referência forte é da funkeira do Sri Lanka M.I.A. Ela e seu ex-namorado, o DJ Diplo, até passaram pelo estúdio para dar uma força. Os gritos primais de Santogold em "Creator" são um dos pontos altos do álbum. Podemos separar faixas como esta e "Shove it", mais ásperas e com ecos de jungle e dub, das mais leves e new-wave "Lights out" e "I´m a lady".
Santogold faz em 2008 o que Doolitle, dos Pixies, fez em 1989: unir uma musicalidade estranha e agressiva a um senso pop apurado. Este tiroteio furioso na direção do pop é também o ponto fraco do disco, vide a insistência excessiva em alguns refrões. Vale lembrar, a despeito da imagem hype-moderninha, a cantora está fazendo shows de abertura para o Coldplay. De qualquer forma, todas as doze faixas têm gancho e o disco passaria por uma coletânea. Méritos à voz de Santogold e ao seu trânsito seguro por referências sonoras diversas mas bem encaixadas.
Se as semelhanças com Karen O. e M.I.A. ajudam a explicar Santogold, as diferenças com duas outras cantoras famosas também são importantes. Enquanto Gwen Stefani passa uma cobertura de excitação e loucurinha em um pop mais do que convencional, Santogold prepara a receita de trás pra frente (primeiro a insanidade, depois o rostinho bonito). E, ironicamente, enquanto a branquela Amy Winehouse deve seu sucesso à black music, Santogold se apropria de "rock classe-média", eletrônica e qualquer outra referência para fazer um som explosivo. Com quase tanto carisma quanto a Amy.

Lição de hoje: %##grrr&*@#!
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