Na segunda pela manhã, meus amigos foram embora e eu fiquei em Tiradentes por conta do trabalho.
Então, depois de escrever três textos e editar dois (grande parte do que você já leu aà embaixo), eu olhei para a chuva interminável que cai sobre a cidade e resolvi ir para o meu quarto ler. Condene-me pela preguiça. Li quase a metade de “Clube dos corações solitáriosâ€, do gaúcho André Takeda, em uma hora.

Caroline Abras com Java Mayam, nos adolescentes tempos de Malhação
Além do tÃtulo ser bastante adequado à minha situação, descobri que esse é o livro que eu queria ter escrito. Que eu podia ter escrito. Inveja boa. Sério. É muito legal, leia.
À noite, começaram os curtas, que eu costumo achar a melhor parte da Mostra. Apesar de trabalhos bem interessantes, ainda espero pelo grande curta de Tiradentes em 2007 (caso de “Eletrodomésticaâ€, em 2006, e “Vinil verdeâ€, em 2005, ambos de Kléber Mendonça Filho). O pernambucano também compareceu neste ano com “Noite de sexta, manhã de sábado†- bela obra em preto-e-branco, com pelo menos um momento sublime, envolvendo um cara em Recife, uma menina em Kiev (Ucrânia) e o sol.
O impacto, porém, não foi o mesmo dos dois trabalhos anteriores, sinal de que a maturidade do cineasta começa a pedir por seu longa-metragem. Outro que voltou à Mostra é Esmir Filho (“Ãmpar parâ€, em 2006) com “Alguma coisa assimâ€, uma crônica intimista e envolvente de dois jovens-adolescentes e o amadurecimento inesperado em uma balada noturna em São Paulo. Crédito para a boa direção de atores e para a Evan Rachel Wood brasileira (que é ainda mais bonita e atua melhor que a versão norte-americana) Caroline Abras.

Nervosos, curtametragistas disfarçam virando a cara pra foto
Destaque positivo ainda para os documentários “Oficina Perdiz†(do brasiliense Marcelo Diaz), sobre uma oficina-teatro na capital federal; e “O homem livro†(da carioca Anna Azevedo) sobre o personagem-tÃtulo real, um pedreiro que acumulou em sua casa uma biblioteca de mais de 4.000 livros.
O primeiro amarra bem seus vários depoimentos, contrapondo a precariedade fÃsica do local-tÃtulo com a importância cultural que ele passou a representar para aquelas pessoas e para a cidade. O segundo combina uma boa proposta visual – fotografia e edição adequadas – com o retrato de um sujeito tão sensacional, que afirma que “[O pé de laranja-lima] vendeu mais que Paulo Coelho, que é a Xuxa da literatura nacionalâ€.
A boa dupla de protagonistas de “A chuva nos telhados antigos†veio fechar a trilogia de curtas do mineiro Rafael Conde para contos do (também mineiro) Luiz Vilela. Os cariocas “Transtorno†e “Anfitriõesâ€, e os paulistas “Entre amigos†e “Encantoâ€, deram uma mostra do que está sendo produzido nos cursos de Cinema de RJ e SP.
Destaque negativo para o carioca “Deriva†(dica: Sofia Coppola já provou que é possÃvel fazer um filme sobre o tédio que não seja entediante); o paulista “Entre amigos†e o mineiro “Clara†(pensar um pouco mais o roteiro antes de pegar uma câmera, talvez?); e o paulista “Joyce†(“O ano em que meus pais saÃram de férias†levantou o padrão de atuação infantil. Sinto muito).
Terça ainda tem mais três sessões de curtas e, se a chuva ajudar, eu devo ver todas elas na tenda. Meu último dia. Uma certa melancolia. Rimas baratas. Vou terminar de ler “Clube dos corações solitáriosâ€. T+.